Condição pouco conhecida faz mulheres conviverem com dor íntima crônica
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Ardência, queimação e dor persistente na região íntima podem afetar relações, autoestima e qualidade de vida, mas a condição ainda é pouco reconhecida e frequentemente confundida com outros problemas ginecológicos
Imagine sentir uma dor sem causa aparente. Sem lesões, vermelhidão ou qualquer machucado visível.
Agora imagine que essa dor acontece em uma região íntima do corpo. Essa é a vulvodínia.
Embora ainda seja pouco conhecida, a vulvodínia é a principal causa de dor na relação sexual em mulheres antes da menopausa, afetando cerca de 12% delas. A condição é caracterizada por dor na região genital externa feminina, sem causa identificável, com duração superior a três meses. Normalmente, a dor piora de forma intensa ao toque próximo à entrada da vagina.
Ela pode surgir desde os primeiros contatos com essa região, como ao usar um absorvente interno pela primeira vez, ou aparecer após anos de vida sem sintomas. Muitas mulheres descrevem a sensação como uma queimação, ardência ou como se houvesse um corte na pele. A dor pode ocorrer em crises ou permanecer constante.
Por que é tão difícil diagnosticar
Apesar do grande impacto na qualidade de vida, a vulvodínia ainda é pouco diagnosticada. Muitas mulheres não se sentem à vontade para falar sobre o problema com parceiros, familiares ou até com profissionais de saúde. Além disso, a falta de consultas ginecológicas cuidadosas, com tempo para ouvir a paciente e realizar um exame físico detalhado, dificulta o diagnóstico.
Como se trata de um diagnóstico de exclusão, é necessário descartar outras causas de dor antes de confirmar a vulvodínia. Por isso, é fundamental que os profissionais de saúde estejam preparados para reconhecer essa condição.
Ainda não se sabe exatamente como a dor se desenvolve, mas acredita-se que vários fatores estejam envolvidos. A teoria mais aceita sugere que um trauma ou infecção local possa desencadear uma resposta inflamatória. Em mulheres mais suscetíveis, essa inflamação levaria ao aumento das fibras nervosas próximas à entrada da vagina e à diminuição do limiar da dor. Assim, até estímulos leves, como o contato da roupa íntima, podem provocar dor intensa.
Alguns fatores podem aumentar o risco de desenvolver vulvodínia, como alergias locais, candidíase de repetição e predisposição genética. Embora os sintomas frequentemente causem ansiedade, depressão, isolamento social e baixa autoestima, não há evidências de que a doença seja causada inicialmente por problemas psicológicos. Um histórico de violência doméstica ou sexual também pode estar relacionado ao surgimento de dor crônica na vulva.
Além disso, outras síndromes dolorosas podem estar presentes, como fibromialgia, síndrome do intestino irritável e cistite intersticial.
Tratamentos e cuidados que ajudam na rotina
O tratamento da vulvodínia exige acompanhamento próximo, paciência e confiança. O ideal é contar com uma equipe multidisciplinar, envolvendo ginecologia, fisioterapia pélvica e psicologia, além de uma rede de apoio familiar. Reduzir o estresse também é importante para ajudar a interromper o ciclo da dor.
Em alguns casos, podem ser necessárias medicações para diminuir a sensibilidade dolorosa e tratar as terminações nervosas envolvidas nos sintomas. Situações mais graves podem exigir procedimentos como anestesia local, aplicação de botox e até cirurgia.
Algumas medidas simples podem ajudar no dia a dia de mulheres com vulvodínia: usar calcinhas de algodão e confortáveis; dormir sem calcinha; evitar duchas higiênicas e lenços umedecidos; evitar absorventes diários; não usar desodorantes ou fragrâncias vaginais; utilizar lubrificantes à base de água nas relações sexuais; aplicar compressas frias após as relações; evitar atividades que pressionem diretamente a vulva, como andar de bicicleta.
Falar sobre vulvodínia e ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento é fundamental para que mais mulheres possam compreender e cuidar da própria dor.
Dra. Paolinne Lima Silva – CRM-DF 23884 | RQE 14802
Ginecologista do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília
Fonte: Jovem Pan








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