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Viciados em apostas on-line vão à Justiça para recuperar milhões em MS

  • há 17 horas
  • 5 min de leitura
Vício em apostas tem aumentado no Brasil e em Mato Grosso do Sul - Marcelo Victor
Vício em apostas tem aumentado no Brasil e em Mato Grosso do Sul - Marcelo Victor

Levantamento do Correio do Estado em 11 processos mostra que apostadores com ludopatia movimentaram mais de R$ 22 milhões nas bets


Levantamento feito pelo Correio do Estado em apenas 11 processos judiciais, nos quais vítimas que alegam sofrer de ludopatia (vício em apostas) movem ações contra quatro plataformas — Betano, Blaze, Superbet e Bet365 —, indica que elas perderam R$ 1,7 milhão do dinheiro que investiram e movimentaram mais de R$ 22,7 milhões dentro dos sistemas das plataformas.


A análise consolidada e detalhada dos 11 processos revela a magnitude de uma verdadeira engrenagem de esvaziamento patrimonial estruturada em ambiente digital.


No topo dessa pirâmide de perdas, o indicador mais alarmante é o prejuízo real bancário consolidado das vítimas: uma perda líquida e definitiva de R$ 1.733.220,00, que evaporou diretamente das contas correntes e faturas de cartão de crédito dos apostadores. Esse valor representa o dinheiro de subsistência de famílias inteiras, economias de décadas e recursos obtidos por meio de empréstimos bancários desesperados.


Para além disso, é necessário compreender o mecanismo de dependência clínica que perpetua essa ruína. É preciso olhar para o turnover, nome dado ao volume de giro no sistema. Juntos, os 11 apostadores movimentaram a assustadora cifra de R$ 22.753.074,12 nas plataformas.


A disparidade monumental entre o prejuízo líquido de bolso e o giro contábil do sistema ilustra com precisão o fenômeno da “reciclagem de capital”, sintoma clássico da ludopatia. Sob o efeito do sistema de recompensa do cérebro (sequestro dopaminérgico), o doente perde a capacidade de reter seus ganhos transitórios. Cada prêmio obtido não retorna para a conta bancária do indivíduo; ele é reinserido de forma compulsiva e intradiária em novas e maiores jogadas, girando infinitamente na máquina até sua progressiva exaustão.


A circulação frenética de recursos financeiros foi alimentada por uma soma maciça de depósitos realizados via Pix, que totalizaram R$ 4.754.178,22. Do outro lado da balança, os saques e retornos efetivos para as contas bancárias dos usuários somaram bem menos: apenas R$ 3.020.958,22.


A diferença de caixa negativa entre as entradas e as saídas indica, segundo alegações de alguns dos advogados das vítimas nos processos, que a atividade de quota fixa, quando operada diante de consumidores em estado de vulnerabilidade psíquica grave, atua como um dreno unidirecional de patrimônio.


Os casos

O primeiro caso mostrado pelo Correio do Estado, na série de reportagens que vem sendo feita ao longo da semana, é o de um funcionário estável de uma empresa pública.


Operando exclusivamente em uma única operadora de apostas, a Betano, ao longo de três anos, ele movimentou R$ 9.508.050,93 em depósitos de sistema e R$ 8.792.271,85 em saques contábeis, amargando uma perda contábil em plataforma de R$ 715.779,08. O giro bruto de suas apostas esportivas alcançou R$ 6.161.140,91, registrando mais de 1.992 operações.


Na sua conta bancária real, a devastação é expressa de forma definitiva: os depósitos via Pix totalizaram R$ 1.337.387,75, contra saques de R$ 740.375,71, consolidando um prejuízo real líquido bancário de R$ 597.012,04.


Com uma remuneração líquida real em folha de apenas R$ 4,2 mil mensais, o funcionário público, que poderia estar recebendo R$ 12 mil por mês, recorreu a uma teia catastrófica de superendividamento para financiar o vício, acumulando faturas atrasadas e empréstimos consignados que geraram um relatório do Banco Central de 62 páginas.


No auge do transtorno, ele contraiu um empréstimo com garantia de seu próprio imóvel de quase R$ 200 mil. A ação judicial requer a restituição integral das perdas com base no artigo 20 do CDC (período anterior a 2023, sob alegação de serviço impróprio de R$ 309.318,37) e na declaração de nulidade absoluta com base no artigo 26 da Lei nº 14.790/2023 (período posterior, somando R$ 287.693,67).


Policial Militar

O dever de manter a ordem e a segurança pública nas fronteiras do Estado não impediu que um policial militar perdesse o controle sobre sua própria vida ao ser capturado pelo ciclo obsessivo do jogo. A vítima, mostrada na semana passada pelo Correio do Estado, movimentou um volume bruto em apostas de R$ 4.653.098,89 nas modalidades esportivas e de cassino.


Para um profissional com salário aproximado de R$ 5.000,00, a intensidade das operações revela a perda total da racionalidade: o parecer técnico documenta sessões de apostas ininterruptas de 24 horas, chegando a realizar 110 apostas em um único dia.


Os depósitos reais efetuados em sua conta somaram R$ 922.373,69, contra saques de R$ 798.474,31. A partir do marco financeiro-comportamental da ludopatia, identificado em março de 2023, quando o volume operacional explodiu 15,3 vezes, os depósitos somaram R$ 907.156,59 e os saques, R$ 792.824,31, resultando em um prejuízo líquido incontroverso de R$ 114.332,28.


A petição pleiteia a devolução do dano material de R$ 168.662,03. O impacto psicossocial foi severo, culminando em divórcio, afastamento laboral militar por 90 dias, internação psiquiátrica urgente e episódios graves de ideação suicida.


Administradora de empresas

A falha na prestação de serviço por parte das plataformas atinge contornos de negligência ativa no caso de uma administradora residente na capital. Previamente identificada pela Superbet com comportamento atípico, sua conta chegou a ser temporariamente suspensa por suspeita de compulsão.


Contudo, em 3 de abril de 2025, a plataforma procedeu à reativação unilateral e indevida da conta, permitindo que a usuária vulnerável reentrasse em uma espiral destrutiva de perdas.


A partir desse marco de reativação ilícita, a autora realizou depósitos bancários sucessivos, que atingiram a marca de R$ 1.499.131,15, enquanto os saques de retorno somaram R$ 943.588,00.


O resultado contábil consolidado apurado pela auditoria técnica registrou um prejuízo real líquido de R$ 555.543,15 (com atualização monetária pelo IPCA pleiteada em R$ 561.919,39). Sem reservas financeiras e com a renda totalmente dilapidada, a administradora enfrenta agora processos de execução e severa desorganização econômica.


Vendedor

Reconhecido anteriormente como profissional produtivo e dedicado em uma loja de shopping na capital, um jovem vendedor comercial teve sua autonomia volitiva sequestrada após desenvolver ludopatia severa durante o isolamento da pandemia. Os extratos parciais da plataforma registram R$ 175.098,80 em depósitos reais via Pix e uma movimentação bruta contábil em cassino de R$ 525.010,69, com ganhos virtuais de R$ 484.490,24.


O prejuízo parcial apurado em cassino foi de R$ 40.520,45, embora a família estime perdas históricas superiores a R$ 60.000,00. O colapso mental do trabalhador foi tamanho que ele passou a alienar bens móveis de sua residência, chegando a vender indevidamente uma máquina extratora de lavar sofás que pertencia a terceiros para obter liquidez imediata. O vício culminou na destruição de seu casamento e na necessidade de acolhimento de sua filha de apenas seis anos pelos avós.




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