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IA detecta incêndios em até cinco minutos e reforça estratégia de combate durante El Niño em MS

  • há 12 horas
  • 9 min de leitura
El Niño pode intensificar incêndios em MS, mas IA atua como aliada no combate. (Divulgação, IHP)
El Niño pode intensificar incêndios em MS, mas IA atua como aliada no combate. (Divulgação, IHP)

Embora o El Niño se intensifique em 2026, seu 'pico' deve ocorrer no verão de 2027


A formação e a intensificação do El Niño, anunciadas desde abril para este novo semestre, já começaram. Com pico previsto para o período entre a primavera e o verão, abrangendo os meses de setembro de 2026 a março de 2027, o fenômeno tem influenciado o clima desde agosto, intensificando características meteorológicas como o calor intenso, a baixa umidade relativa do ar e a irregularidade das chuvas.


Conforme os modelos meteorológicos, a probabilidade de que o El Niño atinja as categorias ‘forte’ ou ‘muito forte’ é predominante, chegando a cerca de 90%. Esse percentual se distribui da seguinte forma: 42% de probabilidade de um El Niño forte e 48% de um El Niño muito forte. Se a previsão se confirmar, é possível que este seja o El Niño mais intenso registrado nas últimas décadas.


Todo esse cenário acende um alerta para o aumento do risco de incêndios. Na área urbana, onde o acesso é mais fácil, as queimadas costumam ser controladas com maior rapidez, embora ainda possam evoluir para situações desafiadoras às equipes de combate. Mas, quando as chamas se alastram por áreas remotas, como proteger os biomas do fogo? Como garantir a preservação da fauna e da flora diante desse risco?


Com o avanço das tecnologias, um sistema que caiu no gosto dos brasileiros nos últimos meses tem garantido mais agilidade e eficiência ao trabalho de quem atua na preservação desses biomas: a IA (inteligência artificial).


Por meio de câmeras de monitoramento instaladas estrategicamente em áreas de difícil acesso, o sistema consegue identificar possíveis sinais de fumaça. As imagens captadas são analisadas pela inteligência artificial, que indica se o registro corresponde a um possível princípio de incêndio florestal, poeira ou névoa, por exemplo.


Confirmado o foco de incêndio, as equipes se mobilizam e conseguem atuar rapidamente, reduzindo significativamente o risco de propagação descontrolada do fogo.


Imagem capturada por câmeras de monitoramento do Sistema Pantera. (Divulgação, IHP)
Imagem capturada por câmeras de monitoramento do Sistema Pantera. (Divulgação, IHP)

Sistema Pantera no Pantanal

A primeira implantação de uma tecnologia como essa em Mato Grosso do Sul ocorreu por meio do Sistema Pantera, desenvolvido pela startup brasileira Um Grau e Meio, em 2022.


O sistema, instalado ao longo da Serra do Amolar, em Corumbá, conta com cinco câmeras com potencial de monitoramento que ultrapassa o corredor de biodiversidade e alcança áreas de Mato Grosso e da Bolívia também. Ao todo, essa tecnologia monitora uma área de até 1 milhão de hectares para a prevenção de incêndios no norte da Cidade Branca, abrangendo locais remotos e sem acesso por estradas.


O sistema funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Na região, ele está sob gestão do IHP (Instituto Homem Pantaneiro), por meio do projeto Abrace o Pantanal.


Após quatro anos de parceria e do enfrentamento da pior estiagem em mais de um século no Pantanal, em 2024, as equipes conseguem elencar, com facilidade, as vantagens que o sistema de monitoramento proporcionou ao longo dos períodos críticos de seca.


Câmera de monitoramento instalada em Corumbá. (Divulgação, IHP)
Câmera de monitoramento instalada em Corumbá. (Divulgação, IHP)

Diferenças entre IA e imagens de satélite

Segundo o IHP, os desafios para manter o Pantanal conservado esbarram na logística e nas características das regiões remotas. Isso porque muitas áreas não possuem estradas, e alguns locais só podem ser acessados por rio ou por via aérea, exigindo deslocamentos de mais de sete horas. Além disso, são regiões onde o acesso à energia elétrica e à telefonia é bastante limitado, dificultando a atuação das equipes de combate.


É justamente estes pontos que o Sistema Pantera busca facilitar. Segundo Igor Souza, analista de tecnologia do IHP, a principal vantagem da ferramenta é o tempo de detecção. Devido ao treinamento realizado com a IA, a identificação ocorre entre três e cinco minutos, ainda na fase inicial da ocorrência, quando há apenas um princípio de fogo.


“Essa detecção acontece principalmente a partir da leitura do território e da identificação de fumaça. Quando um fogo é detectado nesse estágio, mitigar a situação é mais efetivo, com menos esforço, quando é possível acessar o local”, explica.

Essa é a principal diferença em relação aos sistemas de detecção por satélite. Enquanto a inteligência artificial consegue identificar a fumaça, os satélites monitoram apenas os focos de calor, o que torna a detecção mais demorada.


“Atualmente, o tempo de identificação de focos de calor via satélite só ocorre entre 6 e 8 horas depois que a ocorrência teve início. Dessa forma, o tempo de resposta acaba sendo maior e, em muitos casos, o fogo pode ter ganhado condições de ter se transformado em um incêndio. E, assim, é muito mais difícil o combate ou até mesmo impossível de ser realizado, dependendo das condições e do tamanho do incêndio”, acrescenta.

Por meio do Sistema Pantera, as notificações são emitidas de forma automática e em tempo real sempre que há identificação de fumaça. Além disso, a plataforma permite o cruzamento de informações como temperatura, velocidade do vento, umidade relativa do ar e projeções sobre a direção de propagação do incêndio.


Esse conjunto de dados é compartilhado com Prevfogo/Ibama, Polícia Militar Ambiental de MS, Bombeiros de MS e de Mato Grosso, Polícia Federal, Ministério Público Estadual, Armada Boliviana e ONG Nativa, também da Bolívia, auxiliando na tomada de decisões e na resposta mais rápida das ocorrências.


Câmera de monitoramento instalada em Corumbá. (Divulgação, IHP)
Câmera de monitoramento instalada em Corumbá. (Divulgação, IHP)

Papel da IA na identificação de um incêndio

Como qualquer ferramenta que utiliza inteligência artificial, o Sistema Pantera passa por treinamento constante para detectar sinais de fumaça de diferentes intensidades, tanto durante o dia quanto à noite. Além disso, a tecnologia é continuamente aperfeiçoada para diferenciar, com o passar do tempo, fumaça de poeira ou neblina, por exemplo.


“As câmeras que fazem parte do sistema conseguem dar zoom, com raio de alcance de 30 km. Isso permite que cada câmera (e são cinco instaladas em antenas em diferentes pontos ao longo do Rio Paraguai e Rio São Lourenço, com altura máxima de mil metros) possa monitorar, aproximadamente, 280 mil hectares”, explica Igor.

Além da detecção de incêndios, a tecnologia pode integrar outras funcionalidades, como a identificação geoespacial para o monitoramento da fauna.


Impactos na fauna, flora e comunidade

Com mais investimentos nas ações de combate, os principais beneficiados são a fauna, a flora e as comunidades que vivem nessas regiões. Segundo Igor, conseguir identificar focos de fogo ainda em seu estágio inicial resultou em uma redução significativa da área queimada na região da Serra do Amolar.


Na comparação entre 2020 e 2023, por exemplo, a redução foi de 90%, resultado tanto do uso do Sistema Pantera quanto da combinação com outras ações de prevenção e combate.


“No combate a incêndios, pensando de forma a mitigar danos para a flora e a fauna, bem como reduzir danos para a saúde de comunidades devido à fumaça, o sistema Pantera foi usado em conjunto com várias outras medidas, como o trabalho da brigada do IHP, a Brigada Alto Pantanal, as ações de educação ambiental na região da Serra do Amolar, o trabalho conjunto com Prevfogo/Ibama e os bombeiros. Identificamos que, entre 2020 e 2024, conseguimos alcançar o resultado de reduzir em cerca de 60% a área queimada na região da Serra do Amolar“, afirma.

Ampliação do Sistema Pantera em Mato Grosso do Sul

Em 2026, o uso do Sistema Pantera em Mato Grosso do Sul foi ampliado. O Governo do Estado, por meio do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul), e a Bracell aderiram ao projeto de monitoramento, com vigência de 10 anos, que agora está implementado no Parque Estadual Pantanal do Rio Negro, em Aquidauana. A unidade de conservação abrange uma área de 76.852 hectares.


Nessa região, a estrutura é composta por torres e centrais de monitoramento. Os equipamentos contam com câmeras Full HD de alta resolução, zoom óptico mínimo de 30x e giro contínuo de 360°, operando de forma autossuficiente em energia e com conectividade própria por meio de protocolo fechado de rádio ou internet.


As imagens capturadas e os alertas gerados pela inteligência artificial são direcionados para salas de controle e monitoramento integradas, localizadas em Campo Grande, em funcionamento no COCB/Ciops (Centro Integrado de Operações de Segurança) e no CPA (Centro de Proteção Ambiental).


A operação é realizada por meio das plataformas Pantera WEB (detecção por satélite) e Pantera CIG (Central Integrada de Gestão, conectada diretamente às torres). Esse ecossistema permite o acompanhamento diário do índice de risco de incêndios, a modelagem matemática da propagação do fogo e a integração imediata com as brigadas e o Corpo de Bombeiros.


“Agora, eu não preciso destacar um militar pra ficar monitorando essas câmeras. Automaticamente, quando é detectada alguma coisa que precisa de atenção, ela informa no aplicativo que a gente verifica mais pormenorizadamente a situação”, explica o major Eduardo Rachid Teixeira, subdiretor de Proteção Ambiental do CBMMS (Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul).

Sistema de monitoramento no Quartel do Comando-Geral do CBMMS. (Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)
Sistema de monitoramento no Quartel do Comando-Geral do CBMMS. (Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

Ninguém resolve incêndio florestal sozinho

Além de devastarem a fauna e a vegetação nativa, os incêndios florestais exigem alto investimento público e uma grande mobilização de equipes. Com o uso de tecnologias que agilizam processos antes realizados apenas com força humana, a resposta às ocorrências tende a ser mais efetiva, especialmente em áreas de difícil acesso.


“Qualquer deslocamento é muito custoso e muito demorado. Quando eu tenho essa informação antecipadamente e com o detalhamento que a câmera me permite obter, dar o zoom e verificar a situação imediatamente no local, eu consigo dimensionar melhor a minha resposta. Então, se eu preciso de uma equipe, eu vou mandar uma equipe. Se eu precisar de cinco, seis ou sete, vou mobilizar o recurso que for necessário para aquela situação, porque já tenho informações fidedignas do local”, explica o major.


Além da tecnologia, o diálogo permanente com toda a comunidade é fundamental. Segundo o major, as parcerias com moradores, proprietários rurais e brigadas locais fortalecem as ações de combate aos incêndios no Estado, tornando a resposta mais rápida e eficiente.


“Nós aprendemos, ao longo dos anos, que ninguém vai resolver incêndio florestal sozinho. Então, essas parcerias [com moradores da região] são importantíssimas para o desenvolvimento da segurança contra incêndios em todo o Estado. Nós temos os contatos dos fazendeiros da região, das brigadas, sejam as nossas bases avançadas ou as brigadas das fazendas formadas na região, que permitem uma verificação in loco mais próxima. Por exemplo, em vez de deslocar uma equipe de longe, eu posso simplesmente ligar para um proprietário rural que eu sei que tem uma brigada e verificar com ele se pode confirmar a ocorrência. Às vezes, é uma situação pequena que já é resolvida localmente, sem a necessidade do emprego massivo de outros meios”, acrescenta.

Centro de controle do Corpo de Bombeiros. (Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)
Centro de controle do Corpo de Bombeiros. (Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

Intensificação do El Niño já mobiliza equipes de combate

Com o El Niño confirmado, as equipes se preparam para atuar no combate aos incêndios nos biomas de Mato Grosso do Sul, já que as previsões indicam condições climáticas desfavoráveis. Embora o cenário não seja o ideal, o major Teixeira acredita que a articulação entre os órgãos e a preparação antecipada das equipes permitirão alcançar resultados mais positivos em comparação com outros períodos críticos já enfrentados.


“Nós podemos ter alguma redução na quantidade de chuvas e iniciar o ano numa condição de seca, e talvez ter a antecipação dessa temporada de incêndios que seria no segundo semestre, para acontecer logo no primeiro semestre de 2027”, explica.

“Em uma situação muito pior, que foi o que aconteceu em 2024, os resultados obtidos pela prevenção ambiental e pelo combate aos incêndios já reduziram muito essa área queimada. Foi um resultado muito mais positivo, ainda que as condições climáticas iniciais fossem piores. A mesma situação pode acontecer agora, entre 2026 e 2027, quando teremos condições climáticas bastante desfavoráveis. Isso já é previsto, mas a articulação e a preparação das equipes responsáveis não só pela resposta, mas também pelo planejamento, monitoramento e fiscalização, já estão sendo muito mais enfatizadas. Hoje, esse trabalho é muito mais profissional do que naquela surpresa que todos tivemos em 2019 e 2020”, acrescenta.

O major destaca que essa confiança quanto ao enfrentamento às queimadas de 2026 vem, em parte, da intensificação de investimentos em tecnologias, que passou a compor praticamente todas as etapas de prevenção e do combate aos incêndios florestais.


“As tecnologias são diversas. O uso dos drones com câmeras térmicas para a identificação dos focos com precisão, ou mesmo de incêndios subterrâneos, com os quais nós temos bastante dificuldade de combate; as plataformas de monitoramento; o controle das equipes; os recursos empregados em cada ocorrência, tudo isso hoje é feito com o uso de tecnologias. Até expandindo um pouco, o próprio manejo integrado do fogo é uma tecnologia que pegou os conhecimentos tradicionais, trouxe para a academia e foi encorpada tecnicamente com dados, estatísticas e imagens de satélite, para que a gente voltasse para o campo hoje, para fazer o manejo integrado do fogo com educação ambiental, com consciência, com queima prescrita, queima controlada… tudo isso visando à preservação do meio ambiente.”

Fonte: Midiamax



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