Acto: contratos com Fiems chegaram a 70% dos ganhos da empresa do vice-presidente
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Balanço de 2021 da Acto Soluções em Tecnologia, de Crosara Júnior, revela que receita da empresa estava fortemente vinculada à entidade dos industriários
Denúncias de ex-funcionários apontam o suposto uso de CNPJs criados pela diretoria da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul) para ganhar contratos do Sistema S. Entre as suspeitas, a Acto Soluções em Tecnologia (CNPJ 31.356.145/0001-53), criada por Luiz Gonzaga Crosara Júnior em 2019, chegou a ter 70% dos lucros originados nos cofres do Sistema Fiems.
No mesmo ano em que foi fundada, ainda como Eireli (empresa individual), a Acto conseguiu o primeiro contrato com o Sistema S, através de licitação na modalidade ‘convite’. A empresa do atual vice-presidente de Sérgio Longen na Fiems foi a única participante.
Segundo ex-funcionários da Fiems que tiveram acesso aos processos licitatórios nas entidades do Sistema Fiems, os CNPJs não passavam de empresas laranjas criadas para manter os contratos de serviços de difícil mensuração nas mãos de membros da presidência.
Os serviços de tecnologia e locação de equipamentos logo teriam se tornado o ‘filé’ do suposto esquema.
Antes de se tornar o vice-presidente de Sérgio Longen, que vai completar duas décadas à frente do Sistema Fiems, Luiz Crosara conquistou espaço meteoricamente e atualmente é cotado para assumir a presidência no lugar de Sérgio, que estaria sonhando com a presidência da CNI (Confederação Nacional das Indústrias).
Antes de se tornar o número dois na hierarquia, Crosara foi um dos fornecedores de maior ascensão nas compras das entidades do Sistema Fiems, que têm os cofres irrigados pelo dinheiro dos empresários e trabalhadores por contribuições obrigatórias no INSS.
Mesmo recém-criada, a Acto logo declarou que o faturamento em contratos da Fiems chegou a representar 70% do movimento contábil no CNPJ. Conforme dados públicos disponíveis nos portais da transparência do Sesi e do Senai, a empresa faturou mais de R$ 7.698.228,20 do Sistema S somente entre 2021 e 2022.
O total não considera contratos anteriores a 2021, como o citado anteriormente. Faltam os valores no sistema público de dados das entidades.
A ‘dependência’ da Acto de serviços prestados diretamente ao Sistema S fica evidenciada num balanço patrimonial apresentado pela empresa para vencer mais uma licitação na Fiems em 2022, com dados do ano anterior.
Mesmo com apenas dois anos de existência, a Acto conquistou contrato de R$ 4.739.443,20, sendo que, em 2021, o faturamento da empresa foi de R$ 3.244.395,08. E a relação só cresceu até que Crosara assumiu um cargo na diretoria. Imediatamente, foi criado outro CNPJ, que supostamente seria outra empresa laranja para ganhar os contratos e esconder os laços com diretores.
A Blackbird Soluções em Tecnologia Ltda. (CNPJ 52.964.854/0001-91), além de estar no nome de dois funcionários da empresa de Crosara, coincidentemente, teve a mesma ‘sorte’ que a Acto e já nasceu ganhando contratos com o Sistema Fiems.
Conforme denúncia feita ao Jornal Midiamax, as duas empresas de tecnologia supostamente foram criadas por Luiz Gonzaga Crosara Júnior originalmente com o objetivo de conquistar contratos com o Sistema S, outras instituições e até órgãos públicos, sob influência do grupo que opera o suposto esquema.

‘Sorte’ de principiante no cofre do Sistema S
Os dados contábeis da empresa de Crosara mostram que 72,9% do seu faturamento bruto do ano de 2021 foi proveniente de dinheiro da Fiems.
Conforme o documento, a receita bruta da empresa foi de R$ 3.244.395,08 em 2021, enquanto R$ 2.366.354,60 são de serviços prestados ao Sesi e Senai naquele ano, como consta no portal da transparência das entidades.
Desse total, R$ 1.710.014,60 são de contratos com o Senai-MS e outros R$ 656.340,00 com o Sesi-MS.
O balanço apresentado pela própria empresa atesta que, no ano de 2020, a receita proveniente de serviços prestados pela Acto foi de R$ 928.241,40.
De 2019 — quando foi criada — até 2020, a Acto já havia firmado três contratos com o Sesi, conforme atestado de capacidade técnica assinado pelo então coordenador de suprimentos da Fiems, Paulo César de Oliveira.
O crescimento da empresa ficou fortemente vinculado aos novos contratos com o Sistema S, ‘turbinando’ o caixa da Acto, que teve um crescimento de R$ 2,3 milhões em receita com serviços prestados de 2020 para 2021.
‘Braço direito’ de Longen e novos CNPJs

A documentação oficial disponibilizada pela Fiems mostra que o último contrato com a Acto, no valor de R$ 5.331.873,60, encerrou-se em agosto de 2023, três meses após a posse de Crosara Júnior como vice-presidente da Fiems.
No entanto, denúncia revelada na semana passada pelo Jornal Midiamax mostra que, após assumir como vice-presidente da Fiems, sendo o 02 da entidade, abaixo apenas de Sérgio Longen, Crosara Júnior estaria usando a empresa Blackbird Soluções em Tecnologia Ltda. (CNPJ 52.964.854/0001-91) para manter esses contratos sob seu controle.
Conforme apurado pela reportagem, a Blackbird foi criada em novembro de 2023, meses após Crosara assumir cargo na diretoria da Fiems, por dois funcionários da Acto: Adriano Marcelo Marques Miyashiro e Ricardo Servilha Gouvea Filho.
Inclusive, segundo postagem oficial da Acto em seu perfil no Linkedin, Ricardo Servilha foi enviado há cerca de um mês para representar a Acto em um programa de treinamento.
Já Adriano Miyashiro é professor universitário e mantém, em seu currículo Lattes, atualizado em maio de 2026, vínculo institucional com a Acto desde 2021, afirmando ser gerente de suporte, com carga horária de 160 horas, o que significa dedicação integral, considerando uma jornada de 8 horas semanais.
Crosara nega qualquer irregularidade. Diz que deixou o quadro societário da Acto em novembro de 2025 e que se tornou uma espécie de ‘diretor administrativo com papel consultivo’. No entanto, no papel, ainda mantém o controle societário da empresa por meio da holding Meridian Administração e Participações Ltda. (63.522.605/0001-62), a qual criou justamente em 5 de novembro de 2025.
Embora nem sempre seja um indício de ilícito, o recurso de criar holdings para manter o controle de empresas sem aparecer diretamente é velho conhecido das autoridades que atuam no combate à ocultação de bens e lavagem de dinheiro.
O orçamento anual do Sistema Fiems passa dos R$ 450 milhões por ano. Somente de verbas públicas, a Fiems deve receber mais de R$ 60 milhões neste ano de 2026. Não é a primeira vez que, sob a gestão de Sérgio Longen — que ocupa a presidência da Fiems há 19 anos — o uso dessa fortuna é envolto em suspeitas e denúncias.
Em 2019, Sérgio Longen chegou a ter os bens bloqueados e foi alvo de mandados de busca cumpridos pela Polícia Federal na Operação Fantoche. À época, o juiz federal Cesar Arthur Cavalcanti de Carvalho, da 4ª Vara Federal do Recife, ainda determinou a quebra de sigilo bancário do presidente da Fiems.

Crosara admite Blackbird como ‘fornecedora’
Sem responder especificamente sobre a denúncia de que a Blackbird teria sido criada como ‘laranja’ para manter os contratos da Actos sob controle dele, Crosara Júnior disse à reportagem que não tem ‘nenhum vínculo’ com Adriano e Ricardo.
Mas ele se contradiz ao admitir que os dois prestam serviços de ‘mão de obra específica’ na Acto. Questionado sobre ter conhecimento de que os dois são sócios da Blackbird, Crosara confirma e reforça o entrelaçamento entre os CNPJs. “A empresa é fornecedora da Acto”, minimiza.
A reportagem questionou se o contrato firmado entre a Blackbird e o Sesi foi firmado com influência dele, mas Crosara negou, limitando-se a dizer: “Nenhuma influência”.
Sobre a saída de pessoa física para incluir uma holding em seu nome no quadro societário da Acto meses após a investigação da PF vir à tona, o vice-presidente da Fiems afirmou não ter “nenhuma relação” e que a mudança seria somente uma “reestruturação contábil”.
Fiems ainda não se pronunciou
A reportagem busca posicionamento da Fiems através dos e-mails oficiais de comunicação da instituição para esclarecimentos sobre as denúncias e os contratos envolvendo a Acto e a Blackbird. Não houve respostas até a publicação desta matéria.
A reportagem voltou a procurar o vice-presidente da Fiems, Crosara, para questioná-lo sobre a denúncia de que a Acto teria sido criada para firmar contratos com o Sistema S. Também tentamos buscar esclarecimentos sobre a dependência dos recursos da Fiems no balanço da empresa e quais eram e são os clientes da Acto. Crosara visualizou as mensagens e não respondeu.
A Acto também foi procurada pelo e-mail e pelo número oficial de WhatsApp informados como canais de contato em seu site oficial. No entanto, também não obtivemos retorno quanto aos questionamentos sobre ter sido criada para pegar contratos com o Sistema S e às denúncias apresentadas.
O espaço segue aberto para posicionamentos e esclarecimentos.
Fonte: Midiamax








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